Pessoas & Cultura

O combinado que faz o time entregar sem lembrete

Quando a cobrança vira rotina, o time aprende a esperar pela cobrança

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Thiago Ryque
Consultor empresarial 5 min de leitura
O combinado que faz o time entregar sem lembrete. Artigo do blog de Thiago Ryque.

Você pede uma coisa na segunda. Na quarta, pergunta de novo. Na sexta, cobra pela terceira vez e aí acontece.

Cansa. E o mais desconfortável é a conclusão que vem junto, aquela sensação de que só anda quando você empurra.

Antes de aceitar essa conclusão, vale olhar o que o time está aprendendo com essa rotina. Se a entrega sempre acontece depois da terceira cobrança, a terceira cobrança virou parte do processo. Ninguém decidiu isso. Foi se formando com o tempo, do jeito que hábito se forma: sem reunião, sem aviso, só de tanto acontecer.

Em resumo

  • Se a entrega só acontece depois da terceira cobrança, a terceira cobrança virou parte do processo. Ninguém decidiu isso, foi se formando.
  • O Gallup mediu que 70% da variação no engajamento de uma equipe vem do gestor imediato, não do salário nem da empresa.
  • O combinado tem quatro partes: o resultado (não a tarefa), o prazo construído junto, o que fazer quando travar e a data da próxima conversa.
  • Cobrança gasta a sua energia. Combinado gasta a data do calendário, que chega mesmo quando você está fora.

O que o time entende quando a cobrança é a régua

O Gallup mediu algo que muda a forma de olhar para isso: 70% da variação no engajamento de uma equipe vem do gestor imediato. Não da empresa, não do salário, não do produto. Da pessoa que conduz o dia a dia.

Isso não é uma acusação, é uma informação boa. Quer dizer que a maior alavanca que existe está do lado de dentro, ao alcance da mão, e não depende de aumentar folha nem de trocar todo mundo.

E o que costuma estar quebrado não é o esforço do time. É o combinado.

O combinado tem quatro partes

Quase toda entrega que atrasa perdeu pelo menos uma delas.

1. O resultado, não a tarefa

"Organizar o estoque" é uma tarefa. Ela não tem fim, e por isso nunca fica pronta.

"Contagem do estoque fechada com no máximo 2% de diferença, até dia 20" é um resultado. Tem fim, tem número, e os dois lados sabem quando aconteceu.

Enquanto o combinado for tarefa, a conversa de acompanhamento vira discussão sobre esforço. Quando é resultado, vira conversa sobre o número.

2. O prazo que os dois construíram

Prazo que você define sozinho é seu. Prazo que a pessoa ajuda a montar é dos dois.

A diferença aparece na pergunta: "de quanto tempo você precisa pra isso ficar em pé?" Se a resposta for muito diferente do que você esperava, aí está a conversa que precisava acontecer, e ela está acontecendo antes, não depois do atraso.

3. O que fazer quando travar

Essa é a parte mais esquecida. Todo trabalho trava em algum ponto, e o que decide o atraso é o que a pessoa faz nesse momento.

Combine antes: "se travar por mais de um dia, me chama". Sem isso, a pessoa fica esperando o momento certo de te interromper, e esse momento nunca chega porque você está sempre ocupado. Um dia vira uma semana em silêncio.

4. A data da próxima conversa

Marcada no calendário, com hora. Não "qualquer coisa me avisa".

Uma conversa de quinze minutos marcada para o meio do prazo faz o trabalho aparecer antes de estar atrasado. É a diferença entre descobrir o problema quando ainda dá tempo e descobrir quando só resta remarcar.

Por que isso substitui a cobrança

Repare no que muda. Na rotina de cobrança, o combustível é a sua energia: você lembra, você pergunta, você insiste. Se você viaja ou passa dois dias em reunião externa, a corrente para.

Na rotina de combinado, o combustível é a data. Ela está no calendário dos dois, e ela chega mesmo que você esteja fora.

O gestor que não investir tempo na conexão terá que investir na correção. Os quinze minutos marcados no meio do caminho são o investimento mais barato que existe na gestão de uma equipe.

Como começar sem virar o time do avesso

Não anuncie um método novo. Faça com uma pessoa e uma entrega.

  • Escolha a entrega que mais te consome em cobrança hoje
  • Chame a pessoa e refaça o combinado nas quatro partes, junto com ela
  • Marque a conversa do meio do caminho antes de sair da sala
  • Na conversa, pergunte sobre o obstáculo, não sobre o andamento

A pergunta "o que está te travando?" abre uma conversa. A pergunta "já ficou pronto?" fecha uma conversa. Escolher a primeira, de forma repetida, é o que muda o comportamento do time ao longo de alguns meses.

Aquilo que você tolera é o que você tem. Vale para o atraso, e vale igual para o combinado mal feito que produz o atraso.

Perguntas frequentes

Como faço isso sem parecer controle excessivo?

A diferença está na pergunta. "O que está te travando?" abre conversa e mostra apoio. "Já ficou pronto?" fecha conversa e soa fiscalização. A data marcada no calendário protege os dois lados: ela evita que você pergunte a toda hora e evita que a pessoa fique sem canal.

E se a pessoa não cumprir o combinado mesmo assim?

Aí você tem informação que antes não tinha. Com combinado claro, o descumprimento vira um fato específico e conversável, com data e resultado esperado. Sem combinado, vira discussão sobre esforço e boa vontade, que não leva a lugar nenhum.

Devo fazer isso com o time inteiro de uma vez?

Não. Comece por uma pessoa e pela entrega que hoje mais te consome em cobrança. Quando essa funcionar por dois ou três ciclos, o próprio time percebe a diferença e o formato se espalha sem anúncio.

De quanto em quanto tempo deve ser a conversa de acompanhamento?

No meio do prazo. Entrega de duas semanas pede conversa no sétimo dia. O que define não é o calendário fixo, é sobrar tempo de corrigir depois que vocês conversarem.

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