Pessoas & Cultura

Como demitir sem quebrar a confiança de quem fica

A demissão é vista por todo mundo, e o time inteiro aprende alguma coisa com a forma como ela acontece

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Thiago Ryque
Consultor empresarial 5 min de leitura
Como demitir sem quebrar a confiança de quem fica. Artigo do blog de Thiago Ryque.

Demitir alguém é uma das partes mais desconfortáveis de ter um negócio. E é a que mais gente adia por meses.

Existe um detalhe que muda a forma de encarar essa conversa: a demissão não acontece só entre duas pessoas. O time inteiro assiste, comenta no grupo, e tira conclusões sobre como a empresa trata quem trabalha nela. O que fica dessa cena não é a decisão. É a forma.

Quem fica está fazendo uma pergunta silenciosa nesse dia: se um dia for comigo, vai ser assim?

Em resumo

  • A demissão é assistida por todo o time, e a pergunta silenciosa de quem fica é: se um dia for comigo, vai ser assim?
  • Antes do desligamento por desempenho, a pessoa precisa ter tido pelo menos duas conversas com fato, data e combinado de correção.
  • Na conversa: comece pelo assunto, diga que a decisão está tomada, dê o motivo em uma frase e resolva os números na sequência.
  • Nas 48 horas seguintes, conte ao time no mesmo dia, não fale mal de quem saiu, diga quem assume o quê e cumpra à risca o combinado.

O que precisa ter acontecido antes

Uma demissão bem conduzida começa semanas antes dela.

Se a pessoa está sendo desligada por desempenho, ela precisa ter tido pelo menos duas conversas sobre isso, com fato, data e combinado de correção. Se essas conversas não aconteceram, a demissão chega como surpresa, e surpresa é o que faz o restante do time se sentir inseguro.

Não é sobre a pessoa que sai. É sobre o que quem fica entende: aqui você é avisado, ou aqui você descobre no dia.

Se essas conversas não aconteceram, ainda dá tempo. Adiar mais um mês para conduzir direito costuma custar menos do que a insegurança que uma demissão sem aviso deixa por seis meses.

A conversa

Curta, direta e sem plateia. Alguns pontos práticos que fazem diferença:

Comece pelo assunto. "Cheguei numa decisão sobre o seu trabalho aqui e vou te contar agora." Rodeio prolonga o desconforto dos dois lados.

Diga que a decisão está tomada. Se ela está tomada, deixar parecer negociável é cruel. A pessoa passa a argumentar por algo que já foi decidido.

Dê o motivo em uma frase, com fato. Não uma lista de defeitos. Um motivo, verdadeiro, que a pessoa já ouviu antes nas conversas anteriores.

Fale dos números na sequência. Quanto ela recebe, quando, como fica o plano de saúde, o que acontece com as férias. A cabeça dela está nisso, e resolver logo é um gesto de respeito.

Escolha o dia com cuidado. Sexta no fim do expediente deixa a pessoa com o fim de semana inteiro sem poder resolver nada. Começo da semana, de manhã, permite que ela já comece a se mover.

Os cinco passos do dia seguinte

O que você faz nas 48 horas seguintes vale mais que a conversa em si.

  1. Conte para o time, no mesmo dia. Sem detalhes, sem justificativa longa. "O fulano não está mais com a gente. Agradeço o que ele fez aqui." O silêncio é preenchido por versão inventada, e a versão inventada é sempre pior.

  2. Não fale mal de quem saiu. Nunca. O time todo registra isso e entende que é assim que se fala de quem sai. Inclusive dele, um dia.

  3. Diga quem assume o quê, com nome. A insegurança do time vem da dúvida sobre a própria carga. Resolver isso em 24 horas evita uma semana de conversa paralela.

  4. Abra espaço para pergunta. Uma conversa curta com o time, ou individual com quem era mais próximo. Deixe perguntarem.

  5. Cumpra à risca o que combinou com quem saiu. Pagamento na data, documento no prazo, carta de recomendação se prometeu. Quem fica fica sabendo se você cumpriu, porque o mundo é pequeno.

Desde maio de 2026 a NR-1 obriga as empresas a identificar e gerenciar riscos psicossociais no trabalho. Ambiente e conduta de liderança entraram formalmente no campo do que pode gerar autuação e passivo.

Na prática, conduzir desligamento com registro, com aviso prévio de desempenho documentado e sem exposição da pessoa deixou de ser só uma questão de postura. Virou também proteção da empresa.

O que o time aprende

Uma demissão conduzida com clareza e respeito ensina que existe critério, que existe aviso antes, e que a empresa cumpre o que combina. Esses três aprendizados valem mais para o engajamento de quem fica do que qualquer discurso sobre valores.

Não existe empresa com problema de funcionário. Existe empresa com problema de liderança. Isso vale para a contratação, vale para o acompanhamento, e vale de forma especial para a hora de encerrar.

Perguntas frequentes

Qual o melhor dia e horário para demitir?

Começo da semana, de manhã. Sexta no fim do expediente deixa a pessoa com o fim de semana inteiro sem poder resolver nada, nem procurar recolocação nem tirar dúvida de pagamento.

O que devo falar para o restante do time?

No mesmo dia, sem detalhes e sem justificativa longa: que a pessoa não está mais na empresa e o agradecimento pelo que ela fez. O silêncio é preenchido por versão inventada, e a versão inventada é sempre pior que a verdade curta.

Preciso avisar antes que a pessoa pode ser desligada?

Se o motivo é desempenho, sim. Duas conversas anteriores com fato, data e combinado de correção. Sem isso a demissão chega como surpresa, e o efeito na segurança de quem fica dura meses.

A NR-1 mudou alguma coisa nisso?

Sim. Desde maio de 2026 as empresas são obrigadas a identificar e gerenciar riscos psicossociais no trabalho, e a conduta de liderança entrou nesse campo. Conduzir o desligamento com registro e sem exposição da pessoa passou a ser também proteção da empresa.

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