Delegar tem um jeito, e quase ninguém aprendeu
Você já explicou a mesma tarefa três vezes e na terceira foi mais rápido fazer sozinho. O problema quase nunca está na pessoa. Está no que ficou de fora quando a tarefa foi passada.
A conversa que quase todo dono adia, e o roteiro que faz ela render
Tem uma conversa que você precisa ter com alguém do time. Você sabe qual é. Ela está marcada na sua cabeça há semanas.
E toda vez que a hora chega, aparece um motivo razoável para deixar pra próxima: a pessoa está num dia ruim, o mês está corrido, não é o momento. Adiar parece cuidado. Na prática, é a forma mais cara de cuidar, porque enquanto a conversa não acontece a pessoa continua fazendo do jeito que ela acredita estar certo.
O pior desfecho desse adiamento é conhecido: um dia a paciência acaba e a conversa que nunca veio vira uma demissão que, do lado de lá, chega sem aviso. A pessoa não teve chance de corrigir aquilo que ninguém contou pra ela.
Porque ela costuma ser confundida com julgamento. Quando o retorno vira uma lista de defeitos da pessoa, a reação natural dela é defender quem ela é. E aí ninguém fala de trabalho, os dois falam de caráter.
A saída é simples de entender e exige treino para executar: fale do comportamento e do efeito dele, nunca de quem a pessoa é.
"Você é desorganizado" fala da pessoa. Ela vai discordar, e com razão, porque ela se organiza em várias áreas da vida.
"Nas últimas três semanas o relatório chegou depois do prazo, e por causa disso a reunião de segunda começou sem os números" fala do que aconteceu. Não tem o que discordar. É um fato, e fato dá pra resolver.
Serve para a conversa difícil de qualquer tamanho. Leva de quinze a trinta minutos e funciona melhor sentado, com a porta fechada e o celular longe.
Nada de dez minutos de conversa amena antes. Isso deixa a pessoa em alerta e gasta a energia dela adivinhando o que vem.
"Quero falar sobre os prazos do relatório. Vou te contar o que eu tenho visto e quero ouvir a sua parte."
Um fato específico, não um resumo de sensação. Data, o que aconteceu, e a consequência prática.
Se ainda não dá pra citar uma data específica, a conversa ainda não está pronta para acontecer. Volte, observe, anote, e remarque.
"Como está sendo pra você fazer esse relatório?"
E aí cale a boca. Este é o passo mais difícil e o mais valioso. Boa parte dos problemas de entrega tem uma causa que o gestor desconhece: a pessoa depende de um dado que chega tarde, não tem acesso a um sistema, ou nunca foi treinada naquela parte específica.
Se você falar por cima dessa resposta, perde a única informação que resolveria o problema.
Não entregue a solução pronta. Pergunte: "o que precisa mudar pra isso ficar no prazo?"
Quando a pessoa participa da construção, ela sai da sala com um compromisso. Quando ela só recebe a ordem, sai com uma tarefa. A diferença aparece na terceira semana.
Data no calendário, antes de sair da sala. Sem isso, o combinado se dissolve na rotina e daqui a dois meses você estará adiando a mesma conversa de novo.
Repare na palavra que importa aqui: regularidade. Não intensidade.
Uma conversa dura por ano não move nada. Uma conversa de vinte minutos a cada quinze dias, sobre fatos concretos, move.
Guardar tudo pro fim do ano. O retorno perde o valor quando chega meses depois do fato. Quem recebe não lembra do contexto e só escuta a crítica.
Embrulhar em elogio dos dois lados. Aquela fórmula de um elogio, uma crítica e outro elogio ensina o time a desconfiar de todo elogio que você faz. Elogie quando merecer, corrija quando precisar, e mantenha as duas coisas separadas.
Falar da pessoa em vez do trabalho. Já dito acima, e é o erro que mais estraga relação. Vale reler antes de cada conversa.
Conduzir esse tipo de conversa é uma habilidade técnica, igual a ler um relatório ou negociar com fornecedor. Ela se aprende, se treina e melhora com repetição.
Se hoje ela é desconfortável, isso não diz nada sobre você como líder. Diz que você nunca teve aula disso, e quase ninguém teve. A diferença entre quem conduz bem e quem evita não é temperamento. É quantidade de repetição com um roteiro na mão.
O mais perto possível do fato, e nunca na frente de outras pessoas. Retorno que chega meses depois perde o valor, porque quem recebe não lembra do contexto e só escuta a crítica.
Não. Essa fórmula ensina o time a desconfiar de todo elogio que você faz, porque todos passam a esperar a crítica no meio. Elogie quando merecer, corrija quando precisar, e mantenha as duas conversas separadas.
Reação defensiva quase sempre indica que a conversa escorregou do comportamento para a pessoa. Volte para o fato: data, o que aconteceu, qual foi a consequência. Fato não se discute, e é a partir dele que dá para combinar a correção.
Uma conversa de vinte minutos a cada quinze dias, sobre fatos concretos, entrega muito mais do que uma conversa longa uma vez por ano. O que constrói o resultado é a regularidade.
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