Liderança

Como dar um retorno difícil sem o time desanimar

A conversa que quase todo dono adia, e o roteiro que faz ela render

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Thiago Ryque
Consultor empresarial 5 min de leitura
Como dar um retorno difícil sem o time desanimar. Artigo do blog de Thiago Ryque.

Tem uma conversa que você precisa ter com alguém do time. Você sabe qual é. Ela está marcada na sua cabeça há semanas.

E toda vez que a hora chega, aparece um motivo razoável para deixar pra próxima: a pessoa está num dia ruim, o mês está corrido, não é o momento. Adiar parece cuidado. Na prática, é a forma mais cara de cuidar, porque enquanto a conversa não acontece a pessoa continua fazendo do jeito que ela acredita estar certo.

O pior desfecho desse adiamento é conhecido: um dia a paciência acaba e a conversa que nunca veio vira uma demissão que, do lado de lá, chega sem aviso. A pessoa não teve chance de corrigir aquilo que ninguém contou pra ela.

Em resumo

  • Adiar a conversa parece cuidado, mas mantém a pessoa fazendo do jeito que ela acredita estar certo.
  • Fale do comportamento e do efeito dele, nunca de quem a pessoa é. "Você é desorganizado" gera defesa; "o relatório chegou depois do prazo três vezes" gera solução.
  • O roteiro tem 5 passos: diga o assunto, apresente o fato com data, pergunte e fique em silêncio, combinem a correção juntos e marque a próxima conversa.
  • O que muda o resultado é a frequência da conversa, não a intensidade dela. Uma conversa dura por ano não move nada.

Por que a conversa dá medo

Porque ela costuma ser confundida com julgamento. Quando o retorno vira uma lista de defeitos da pessoa, a reação natural dela é defender quem ela é. E aí ninguém fala de trabalho, os dois falam de caráter.

A saída é simples de entender e exige treino para executar: fale do comportamento e do efeito dele, nunca de quem a pessoa é.

"Você é desorganizado" fala da pessoa. Ela vai discordar, e com razão, porque ela se organiza em várias áreas da vida.

"Nas últimas três semanas o relatório chegou depois do prazo, e por causa disso a reunião de segunda começou sem os números" fala do que aconteceu. Não tem o que discordar. É um fato, e fato dá pra resolver.

O roteiro de cinco passos

Serve para a conversa difícil de qualquer tamanho. Leva de quinze a trinta minutos e funciona melhor sentado, com a porta fechada e o celular longe.

1. Diga o assunto logo no começo

Nada de dez minutos de conversa amena antes. Isso deixa a pessoa em alerta e gasta a energia dela adivinhando o que vem.

"Quero falar sobre os prazos do relatório. Vou te contar o que eu tenho visto e quero ouvir a sua parte."

2. Apresente o fato, com data e efeito

Um fato específico, não um resumo de sensação. Data, o que aconteceu, e a consequência prática.

Se ainda não dá pra citar uma data específica, a conversa ainda não está pronta para acontecer. Volte, observe, anote, e remarque.

3. Pergunte e fique em silêncio

"Como está sendo pra você fazer esse relatório?"

E aí cale a boca. Este é o passo mais difícil e o mais valioso. Boa parte dos problemas de entrega tem uma causa que o gestor desconhece: a pessoa depende de um dado que chega tarde, não tem acesso a um sistema, ou nunca foi treinada naquela parte específica.

Se você falar por cima dessa resposta, perde a única informação que resolveria o problema.

4. Combinem a correção juntos

Não entregue a solução pronta. Pergunte: "o que precisa mudar pra isso ficar no prazo?"

Quando a pessoa participa da construção, ela sai da sala com um compromisso. Quando ela só recebe a ordem, sai com uma tarefa. A diferença aparece na terceira semana.

5. Marque a próxima conversa

Data no calendário, antes de sair da sala. Sem isso, o combinado se dissolve na rotina e daqui a dois meses você estará adiando a mesma conversa de novo.

O que faz diferença de verdade

Repare na palavra que importa aqui: regularidade. Não intensidade.

Uma conversa dura por ano não move nada. Uma conversa de vinte minutos a cada quinze dias, sobre fatos concretos, move.

Os três erros mais comuns

Guardar tudo pro fim do ano. O retorno perde o valor quando chega meses depois do fato. Quem recebe não lembra do contexto e só escuta a crítica.

Embrulhar em elogio dos dois lados. Aquela fórmula de um elogio, uma crítica e outro elogio ensina o time a desconfiar de todo elogio que você faz. Elogie quando merecer, corrija quando precisar, e mantenha as duas coisas separadas.

Falar da pessoa em vez do trabalho. Já dito acima, e é o erro que mais estraga relação. Vale reler antes de cada conversa.

O que ninguém te contou

Conduzir esse tipo de conversa é uma habilidade técnica, igual a ler um relatório ou negociar com fornecedor. Ela se aprende, se treina e melhora com repetição.

Se hoje ela é desconfortável, isso não diz nada sobre você como líder. Diz que você nunca teve aula disso, e quase ninguém teve. A diferença entre quem conduz bem e quem evita não é temperamento. É quantidade de repetição com um roteiro na mão.

Perguntas frequentes

Qual o melhor momento para dar um retorno difícil?

O mais perto possível do fato, e nunca na frente de outras pessoas. Retorno que chega meses depois perde o valor, porque quem recebe não lembra do contexto e só escuta a crítica.

Devo usar a técnica de elogio, crítica e elogio?

Não. Essa fórmula ensina o time a desconfiar de todo elogio que você faz, porque todos passam a esperar a crítica no meio. Elogie quando merecer, corrija quando precisar, e mantenha as duas conversas separadas.

E se a pessoa reagir mal ou ficar na defensiva?

Reação defensiva quase sempre indica que a conversa escorregou do comportamento para a pessoa. Volte para o fato: data, o que aconteceu, qual foi a consequência. Fato não se discute, e é a partir dele que dá para combinar a correção.

Com que frequência devo ter essas conversas?

Uma conversa de vinte minutos a cada quinze dias, sobre fatos concretos, entrega muito mais do que uma conversa longa uma vez por ano. O que constrói o resultado é a regularidade.

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