Como dar um retorno difícil sem o time desanimar
Adiar a conversa difícil parece cuidado com a pessoa, mas costuma custar mais caro para ela do que a conversa custaria. Existe um roteiro que torna esse momento produtivo.
Por que a tarefa volta pra sua mesa mesmo depois de você ter passado pra frente
Você já explicou a mesma tarefa três vezes para a mesma pessoa. Na terceira, foi mais rápido fazer sozinho.
Isso não é falta de paciência sua, e não é má vontade dela. É que delegar tem um jeito, com etapas, e esse jeito não é ensinado em lugar nenhum. Você abriu o seu negócio porque era bom no que fazia. Ninguém te entregou junto um manual de como passar o que você sabe para outra pessoa.
E repare no caminho que quase toda promoção segue. A empresa escolhe quem entrega melhor no trabalho técnico e coloca essa pessoa para dirigir as outras. É a escolha mais natural que existe, e quase sempre é a certa do ponto de vista de quem promove. Só que dirigir gente é outra função, com outras ferramentas, e o manual não vem junto com o cargo.
Quase sempre a conversa é assim: "preciso que você cuide do fechamento do mês". A pessoa balança a cabeça, você volta pro seu trabalho, e duas semanas depois o fechamento está pela metade e do jeito errado.
Repare no que ficou de fora dessa frase:
Cinco informações que ficaram na sua cabeça e não foram para a dela. Ela não entregou porque não recebeu o suficiente para entregar. O problema não é a pessoa, é o combinado que não foi feito.
Delegar não é uma coisa só. São quatro degraus, e a maior parte dos problemas nasce de tratar o degrau 1 como se fosse o degrau 4.
A pessoa executa o passo a passo que você definiu. Não decide nada. Serve para tarefa nova, pessoa nova, ou coisa em que errar custa caro.
O que você entrega junto: o passo a passo escrito. Não falado. Escrito.
A pessoa executa e te informa o resultado. Ainda não decide o caminho, mas já resolve os detalhes pequenos sozinha.
O que você entrega junto: o resultado esperado, e o momento de te contar.
Aqui a pessoa estuda, escolhe o caminho e traz a proposta. Você aprova ou ajusta. É o degrau em que a autonomia começa de verdade.
O que você entrega junto: os limites. Até quanto pode gastar, o que não pode ser mexido, quem precisa ser avisado.
A pessoa é dona daquilo. Você acompanha pelo número, não pelo passo.
O que você entrega junto: o indicador que vocês dois vão olhar, e a data em que olham.
A maior parte das tarefas que voltam pra sua mesa foi entregue no nível 4 quando a pessoa ainda estava no nível 1. Ela não tinha como saber o que fazer, e você não tinha como saber que ela não sabia.
Antes de passar qualquer tarefa adiante, três minutos resolvem semanas de retrabalho. Sente com a pessoa e definam juntos:
Esse terceiro ponto é o que quase todo mundo pula. E é justamente o que separa a tarefa que volta da tarefa que anda.
Cobrar é perguntar por que não ficou pronto. Acompanhar é estar junto no meio do caminho, quando ainda dá tempo de corrigir.
E aqui está a distinção que muda o resultado: não é o volume de cobrança que move o número, é a frequência da conversa.
Quem acompanha de quinze em quinze dias descobre o problema no dia quinze. Quem só cobra no fim descobre no dia trinta, quando o mês já fechou.
Escolha uma tarefa que hoje só você faz e que se repete todo mês. Uma só.
Em três meses, com uma tarefa por mês, você tem três coisas fora da sua mesa e três pessoas mais preparadas. Não é rápido. É o que funciona.
Liderança não é dom, é treino e repetição. Delegação também.
Não existe prazo fixo, existe sinal. Solte quando a pessoa passar três ciclos seguidos entregando no prazo combinado sem você precisar puxar. Se ela ainda te procura pra decidir coisas que já estão dentro do limite dela, o combinado de autonomia não ficou claro.
Erro dentro do nível combinado é custo de formação, e sai mais barato que continuar fazendo tudo sozinho. O que não pode acontecer é erro por falta de informação que você tinha e não passou. Na conversa de acompanhamento, pergunte o que faltou, não por que deu errado.
Nem sempre. Experiência técnica não é o mesmo que preparo para decidir. Escolha por quem já demonstra critério nas decisões pequenas do dia a dia, e comece essa pessoa no nível 2, mesmo que ela seja a mais antiga da casa.
Uma tarefa por mês, documentada e acompanhada, tira três coisas da sua mesa em um trimestre. Tentar delegar cinco de uma vez costuma terminar com as cinco voltando.
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